Hoje a minha mamã deixou de conseguir engolir os comprimidos!
Após vários episódios de afasia, seguidos de períodos de recuperação, ficou diferente. Compreende o que lhe digo, conhece-me, mas a linguagem ficou mais limitada.
De manhã, está mais desperta. Olha à sua volta com ar espantado. Diz que não entende nada.
-"O que é que aconteceu? Eu não entendo nada. Filha ajuda-me,"
Parece que acabou de nascer.
-"Mami, então, nós estamos aqui na tua casa. Esta é a tua casa. E vivemos aqui. Agora estás a tomar o pequeno almoço".
-"Eu não entendo nada!"
-"Estás a comer. É preciso comer para não ter fome, não é?
Diz que sim.
-"Pois é! Sabes tu estiveste uns dias um pouco confusa. Até foste fazer um exame à cabeça, mas estava tudo bem. Está tudo bem. Agora não te lembras bem do que se passou e estranhas. Mas depois vais-te lembrar."
Mais tarde, sentada na casa de banho, continua numa aflição.
- "Filha , mas o que é que aconteceu? Não percebo nada. Tu estás diferente. Ajuda-me." O olhar assustado, implora.
Sento-me ao lado dela. Abraço-a. Já não tenho que dizer. Ela geme.
-"Filha experimenta!" Faz gestos vagos.
-"Mami, o que queres!"
-"Faz assim...." Olha à volta. Mexe as mãos. -"Assim, um, dois, três quatro..."
Estará a pedir-me ajuda médica, técnica ?....
Faço-lhe festas.
-"Oh filha ninguém sabe!"
-"Mami, tu tens medo?"
-"É um medo horrível!"
Estamos abraçadas. Encosto a cabeça à cabeça dela e ficamos assim.
Num enorme desamparo.
Somos ponto minúsculo, num universo vazio.
Ao longo do dia, vai caindo numa modorra. Dorme muito. A dificuldade de expressão vai -se acentuando. Geme. Geme. Pergunto-lhe: -"Mami, doi-te alguma coisa?" Olha-me e não responde. -"Mami, o que tens?" Olha-me e não responde. Continua a gemer. -"Mami, tens medo?" - "Tanto! Tanto!" responde.
Há pouco, ao tentar dar-lhe os comprimidos com a sopa da noite, vejo que não os engole. E a facilidade com que antes o fazia! Agora os comprimidos andam às voltas e reaparecem na ponta da lingua.
-"Mami tens que engolir os comprimidos!" .
-"Pronto, pronto!" declara, mas não os engole.
-"Mami, mostra a lingua!" Lá estão eles. Desespero-me. Faz um gesto com a mão pedindo calma. Está assustada. Tenho que lhos tirar da boca e até isso é dificil. Lá consigo esmagá-los e dar-lhos.
Tento acalmá-la -"Pronto, mami. Nós resolvemos isto. Vês? Já está!"
Mas por dentro, sinto-me perdida.
Ela está triste. Eu estou triste.
Mais um degrau que se desceu.
Sinto-me a perdê-la. Inexorávelmente.
Há dias chego a casa e vou encontrá-la sonolenta. Demasiado. A moça que lhe faz companhia até eu chegar ,diz-me que não consegue estabelecer qualquer diálogo com ela. Que não percebe nada do que ela diz.
Tento acordá-la. Abre os olhinhos, mas não abre o seu sorriso luminoso, nem diz :"Olha a minha menina!..." Fica indiferente.
_"Mami, então, tens muito sono?" Diz que sim com a cabeça.
Puxo por ela. Faço perguntas. Percebe o que digo. Tenta responder procurando esforçadamente as palavras, mas o que sai são conjuntos de sons sem sentido. Como se de uma nova linguagem se tratasse.
Telefono ao médico que arranjei para que a visite regularmente e me dê apoio em momentos como este.
-"É melhor levá-la à urgência".
-"Oh, Sr. Dr. não pode vir cá?"
Que lhe desculpe, mas hoje não pode vir.
Oh meu Deus levá-la à urgência? O filme do que se tem passado noutras alturas, desenrola-se na minha cabeça. A confusão. As horas e horas a fio, esperando para ser vista, esperando para colheitas de sangue, esperando para fazer exames, esperando para saber os resultados dos exames. E entretanto o caos. As macas acumulando-se à nossa volta. Num vai e vem. Os gemidos. O sangue. -"Sra. Enfermeira, oh Sra Enfermeira!"
E as enfermeiras circulando sem parar, Muito boas profissionais, regra geral, revelando uma melhoria surpreendente, em relação ao passado. Mas que não chega.
E eu sempre ao lado da maca, de pé, dando a mão, dando beijinhos, acalmando-a. As dores nas pernas a crescer até parecer que da cinta para baixo está tudo em ferida.
E no fim saber que temos sorte. Que é um privilégio poder estar ao lado dela.
Estar de bata. Ser da casa.
-"Oh Sr Dr. levá-la para aquela confusão!!... Aquilo é tão terrível!!".
Que tenho de ponderar e tomar a responsabilidade.
Volto para o pé dela. Tento espevitá-la - só aquela linguagem incompreensivel.
Reparo que o oxigénio se tem gasto com maior lentidão. Uma garrafa que deveria durar dois dias, durou três. Telefono para a empresa. Lá consigo expor o que se passa, sugerindo que talvez o manómetro esteja a debitar oxigénio a uma pressão inferior à marcada. Prometem trazer outro com urgência.
Entretanto chega o neto que "é o seu menino mais lindo do mundo". Mais tarde a minha irmã.
Ficamos a andar por ali, um pouco como baratas tontas. Falamos a miúdo com ela, esperando que não seja verdade e daquela vez ela responda normalmente. E a inevitabilidade da Urgência a crescer de cada vez que o tentamos.
Acabamos por decidir chamar a Cruz Vermelha. Por sorte um primo do meu sobrinho está de serviço e preparava-se para sair. Vêm a caminho.
Entretanto chega o técnico da empresa com o novo manómetro. Quando a Cruz Vermelha chega, já ela está há algum tempo com o novo débito de oxigénio.
Os jovens da Cruz Vermelha entram artilhados de tecnologia. E um deles diz muito alto - "Então, como se chama?"
Abre os olhos agastada e do alto dos seus 82 anos declara -"Como me chamo, ora essa, chamo-me.. " E diz o nome certinho. Ficamos a olhar uns para os outros.
Segue-se a recolha de vários sinais vitais. Tudo dentro dos padrões normais. E ela espantada, indignada com a invasão. -"Vocês são simpáticos, mas são uns chatos!"
Acabam por se ir embora, recomendando vigilância.
É o que fazemos durante toda a noite.
De manhã, o médico visita-a. Encontra-a bem.
17 de Outubro
Hoje faz anos que nasci. A minha mãe era sempre a primeira a aparecer. Logo pela manhã, lá vinha com um envelope e um cartãozinho lindo. E aquele sorriso de quem antecipava o meu contentamento ao ver o que trazia.
Há um ano, foi a primeira vez, desde que me conheço, que não se lembrou.
Hoje de manhã, enquanto lhe mudava a fralda, disse-lhe,só porque o silêncio me era intolerável:
-"Sabes, mamã, hoje faço anos?"
-"Ah, não sabia! E agora o que te vamos dar?"
Logo a seguir esquece.
O almoço decorre lentamente. O apetite não é muito, os movimentos lentos, no ritmo próprio de quem não quer chegar a lado algum.
Como já tenho feito outras vezes, para a estimular prometo-lhe : - "Mami, quando acabares, dou-te chocolate". Que ela adora!
-"Ah! Isso é bom!" E recupera algum entusiasmo.
Acabada a refeição, vou buscar o prometido : "Olha o que trago aqui!
Sorri, contente :"Ai! Coisa boa!..."
Come um quadradinho. Deixa os outros.
-"Então mami, tens aí o chocolate quase todo!"
-"Tenho medo!"
-"Tens medo? Porquê?"
-"É bom demais para mim! É para guardar!"
-"Oh mami, é todo para ti. Há mais lá dentro!"
-"E ninguém bate, ninguém ralha?"
-"Não minha querida, ninguém bate. Podes comer!"
-"E eles não vêm por aí?"
-"Eles quem?"
-"Não sei. Olha aqueles além!" E aponta a própria imagem no espelho em frente!
Fico a pensar que registos serão estes? Virão desde quando? Estariam onde?
A minha mãe era uma mulher autoritária, cheia de certezas, independente. Forte.
Onde estivesse, ofuscava toda a gente com o seu brilho.
Ao acompanhá-la neste processo, ao vê-la surgir outra e outra e outra ainda, empequenecendo, como gosto de lhe chamar, tenho o sentimento de a acompanhar numa descida ao fundo da memória, num desvendar da própria alma familiar. Até a mais antiga. Aquela que correrá no fundo de todos nós,
Enquanto lancha, lê parcialmente um título no jornal que desfolho. Pergunta : -"Basta o quê?"
Leio-lhe "É preciso dizer basta ao que se passa em lares!" Explico-lhe sucintamente do que se trata. Não diz nada. Daí a pouco, reparo que não tocou mais nas bolachas.
-"Então, não queres mais bolachas?"
-"Não"
-"Porquê?"
-"Então não há lares que não têm dinheiro lá dentro?"
-"Oh, minha querida, essas bolachas são todas para ti. Há mais na cozinha".
Olha-me séria. Não diz nada.
Passado um bocado, continua sem comer as bolachas (curiosamente deixou de comer o que mais gosta...)
-"Então, mami, não queres mais bolachas?" Volto a perguntar.
-"Queria, mas não quero!"
-"Porquê?"
-"Então não há outras pessoas que não têm que comer, nem nada?"
A noite foi terrível. Gemia, gemia, gemia.
-"Mamã o que tens?"
-"Ai doi-me muito, doi-me muito!"
Infecção urinária? Outra coisa? Os sinais não são claros, contradizem-se.
Normalmente tento almofadar-lhe o mundo. E até as frases. Procurando protegê-la das arestas que adivinho. Mas neste caso, sem pistas claras, fico sem saber o que fazer.
Vou inventando expedientes que acabam por não resultar. Volta a gemer. Volto a acordar.
E pôe pomada. Tira pomada. Lava com soro fisiológico. Muda cueca. Tira cueca.
Perco o controlo. Dou por mim a gritar por dentro, bebeda de sono - "Não aguento mais! Não quero mais isto!"
Irrito-me com os gemidos. Já não os posso ouvir. Sou àspera.
Ela olha para mim com aqueles olhinhos, o olhar transparente e assustado. E fica amuada. Começa a não colaborar.
Pelas 6 da manhã, finalmente adormece.
Volto para a cama, mas já não durmo. Mais uma vez tomo consciência de como é fragil este equilibrio. A possibilidade de caos está sempre presente. À distância de um gesto.
E mesmo que a ternura pareça inesgotável, de um momento para o outro, pode surgir outra face. Basta o cansaço.
-"Há pessoas, sabes, que quando não estão, dá-se logo pela falta. Nós já temos... olha, temos comida. Nós estamos aqui. A Dª Ana faz muita falta, não sei porquê. ( A Dª Ana, que nos ajuda diariamente, tinha acabado de sair).
-"Quem mais queria que estivesse aqui?"
-"Não sei, sabes, porque.... Agora temos que pensar que nós somos um clã... há alguém que faz falta ao grupo."
-"Quem falta no grupo?"
-"Vamos pensar nisso."
-"A pretinha (a cachorra) faz parte do clã?"
-"A pretinha até faz. Ela já está no clã. Engraçado. É engraçado isto tudo. E tu vais sair agora?"
-"Não, não vou."
-"Ai que bom, graças a Deus!"
-"Quem mais faz parte do clã?"
-"Não sei, não sei, mas tenho ideia que falta alguém."
Ouve-se o elevador - "Olha, vem alguém!"
-"São os vizinhos. Quem é que gostava que chegasse?"
-"Não sei, mas falta alguém. É engraçado isto. É engraçado... Filha, estamos a pensar quem é que fica no clã."
-"Ai é?"
-"É. As pessoas que são necessárias para o clã."
-"Ai é?"
-"É. Porque há gente que ... são necessárias... Aqui, é só mulheres?"
-"Neste momento é"
-"Ah! Também isso é interessante, sabes?... Porque a pessoa que faz falta, faz falta mesmo."
-"É só uma pessoa ou são mais?"
-"Isso agora não sei. Ainda não analisei isso"
-"Gostava tanto de saber quem faz falta ao clã!"
-"Pois filha, então faz favor de ver.... Por exemplo, este copo faz falta ao clã."
-"Faz falta para beber.."
-"Pois. Porque nós somos um grupo. E para este nosso grupo faz falta... se uma pessoa sai, faz falta."
-"E não vem mais ninguém?"
-"Quem queria que viesse?"
-"Uma pessoa mais. Somos muito pouquinhos. Somos pessoas que gostamos uns dos outros, mas...."
-"Somos pouquinhos?"
-" Somos, somos pouquinhos. Mas era bom que viesse mais alguém para ajudar... Pois é... Isto. Isto agora... Estes que faltam, faltam mesmo!"
-"Quem é que falta?"
-"Então, não há pessoas a faltar? Pensa tu que és novinha. Pensa lá!"
-"É muito importante essa pessoa?"
-"É muito importante! ... Pessoas que fazem realmente falta ao clã..."
-"Somos pouquinhos, não é?"
-"É, somos pouquinhos..."
Adormece. Passado pouco tempo acorda :
- "Portanto, filha estás aí."
Aponta para a moça que habitualmente lhe faz companhia a esta hora e de quem gosta muito :
-"Tu estás aí. Portanto, já faz um clã. É bom... Falta mais um bocadinho de gente..."
Em pleno processo de vindima, noticias preocupantes - "A mamã está pior!". O coração, já tão sobrecarregado, está a entrar em taquicardia!
O médico - "É natural, com o problema dela!"
E fiquei sozinha, com esta naturalidade a pesar como chumbo! Medo! Um medo intolerável!
Sento-me frente ao oratório do corredor. Pertence à família, não sei desde quando! Os santos antigos. Alguns mesmo toscos, de madeira carcomida. A minha avó, à noite, acendendo a lamparina. À hora certa. E antes dela, tantas antepassadas repetindo o mesmo gesto e rezando...
Sento-me. E sinto-me parte dessa cadeia. Um rio de dores em que me integro.
Vem desde quando, isto de ficar aqui e deixar correr o pranto?
Apresso os trabalhos. Uso todos os truques que sei, para fazer levantar o cangaço no lagar! Em dois dias levanta! Começou a fermentação!
Entrego o processo nas mãos de amigos e regresso a casa!
Olhe quem está aqui!
Ao ver-me não quer acreditar - "Oh minha menina que eu morria por não te ver!"
Os gestos do reencontro. Um rio de ternura posto a correr entre as nossas mãos. E mais tarde, porque paro, num gemido - "Quero beijinhos".
No dia seguinte, a tensão volta ao normal e o pulso também.
-"Filha, alguém manda em ti?"
-"Aqui? Não, ninguém manda."
-"Ninguém te ralha?"
-"Não, ninguém ralha".
-"Meu Deus! Meu Deus!"
-"Porque haviam de ralhar?"
-"Sei lá, mas ralhavam muito, muito ralhados!"
-"Ralhavam contigo?"
-"Sim, ralhavam!"
-"Quem?"
-"Não sei, mas ralhavam!"
...
-"Quem te fez esses sapatos?"
-"Comprei-os numa sapataria".
-"Ah!! E depois ficaram a ser teus?"
-"Ficaram"
-"E tinhas dinheiro para... sair disso?"
...
-"Filha, porque é que ...Não percebo bem....Então eles agora... Tu pudeste fazer assim?"
-"Ninguém manda em mim, é?"
-"Pois! Uma menina não tinha voz! Então, uma menina a pôr-se assim nos seus?!... Não sei, mas era uma coisa horrível! Nós hoje não fazemos isso nunca. Não sei, era uma coisa horrível!"
-"Ainda bem que agora é diferente, não é?"
-"Ui Jesus! Uma coisa maravilhosa!"
E esta ternura avassaladora!
A coragem e a força por detrás da liberdade que pudeste proporcionar-me!
O que só agora claramente vejo, ao ver falar a criança em ti!
Mami, mami, deixa-me embalar-te pequenina!
O sr João anda a "acarrar" as tinas.
Homem rude, solteirão, vive só, num casarão semi-arruinado.
Chamam-lhe o mouco. De facto, às vezes, é preciso berrar para que aparente ouvir. Outras, ouve o que dizemos entre nós, sem que berremos. Talvez tenha aprendido a ouvir só quando lhe interessa.
Na escola, não aprendeu a ler. Contam que às perguntas : -"Que letra é esta João?", respondia -"Dizo tu que eu não sei" E assim ficou.
Nesta vindima apresentou-se com um novo cão.
-"Atão sr João o seu outro cão?"
Homem de poucas falas, tomou o fôlego e contou : -"Foi assim. Começou a impertigar, a impertigar.
Uma noite, foi dar a volta dele, voltou, abraçou-me.
Ao outro dia estava mórto"
Deixar a mãe para ir à vindima. O coração apertado. -"Tenho que ir apanhar as uvas." E ela, triste -"P'ra que é que queres uvas?"
Chego de noite. Os passos ecoam na aldeia adormecida. Alguns cães alarmados. Os cheiros que amo. As pedras, as casas que são meu corpo também. E o coração alheado, calado, como se ali não estivesse.
Por todo o lado me pesa saber que se finda.
Já na apanha dos cachos, em plena vinha, falo com ela :-"Mami como estás?". E a voz sumida. A falta de entoação. -"Estou muito cansada, muito cansada,,,".
E eu findo-me também.
Agita-se. -"Ai, ai".
"Mami, precisas de alguma coisa?
"Ai, quero fazer xixi, não tem sítio?"
"Tem, vamos lá!".
E o rosário de acções a desenrolar-se.
Levar a cadeira de rodas até junto do cadeirão, travá-la, abrir o suporte dos pés.
Desligar o oxigénio. Retirar o sistema do nariz.
Levantar o cadeirão. Abrir o suporte para os pés.
Ajudar a levantar (fazer o máximo de força - não se pode cansar).
Nunca quer ir para a cadeira de rodas - "o bicho".`Convencer a sentar - "é melhor para não te cansares".
Protesta.
Ajudar a sentar na cadeira de rodas. Fechar o apoio para os pés. "Mami, põe aqui os pés!".
Manobrar a cadeira pela casa. Levá-la até junto da sanita. Abrir o suporte dos pés. Travar a cadeira.
Ajudar a levantar. Dizer onde tem que sentar. Ajudar a baixar a roupa. Ajudar a sentar.
"Pronto já está".
"Ai que bom!"
Almofada nos joelhos para se apoiar (por vezes demora muito tempo).
Almofada no rebordo das costas de uma cadeira colocada em frente, para apoiar a testa.
Já está!.
"Pronto. Ficas aí à vontade, está bem?. De vez enquando venho cá!"
"Está bem minha filha!"
"Então já está?" Diz que não.
"Então mami já queres sair ?" Diz que não.
"Então já está?". "Não sei!".
Pegar na lanterna. Espreitar para dentro. Não se vê nada.
"Mami, tu tens vontade de fazer mais alguma coisa?". "Não sei!".
Se não sabe provavelmente, não quer. "Está bem, vamos sair".
Inspeccionar a "cueca partida ao meio". Como nem sempre pede, às vezes é preciso mudá-la. É o caso.
Tirar a "cueca" suja. Colocar outra da maneira que se engendrou para que se canse o menos possível. Ainda sentada, passar a metade com autocolantes por debaixo das pernas. -" Mami pega aqui de cada lado". Mostrar onde tem que pegar. Ela pega. Colocar a metade da frente sobre as pernas. Colar os autocolantes de forma a refazer a cintura da "cueca".
"Pronto vamos levantar!"
Ajudar a levantar, fazer a maior força possível para que se não canse.
Puxar a cueca. Refazer o perimetro das pernas colocando os autocolantes.
Ajudar a puxar a roupa para cima.
Ajudar a sentar na cadeira de rodas.
Nunca quer - diz que é triste - "mas é melhor para não te cansares".
Fechar o apoio dos pés. "Mami, põe aqui os pés!"
"E agora para onde vou?" " Vais para a sala" .
Manobrar a cadeira através da casa.
" Ai meu Deus! ai meu Deus! Estou tão cansada!"
Levá-la até ao cadeirão. Abrir o apoio dos pés. "Vamos levantar?"
Ajudar a levantar, fazendo a maior força possível para que se não canse.
Dirigi-la para o cadeirão
- "É para sentar aqui?".
Ajudar a sentar. Fechar o apoio dos pés. Reclinar o cadeirão - "Não tenhas medo, sou eu que estou a inclinar a cadeira".
Colocar o catéter do oxigénio no nariz. "Para que é isso?". "É um gás ( a primeira vez que ouviu "oxigénio" ficou assustada -"oxigénio?!!!". Nunca mais foi oxigénio passou a ser gás). "é um gás. O médico recomendou"...
E, finalmente, no seu cadeirão a descansar.
Entretanto, antes que acabasse este relato, novo rosário se desenrolou, em tudo semelhante ao que agora termino.
Eu não sei onde estou, eu não sei onde estou.
Está na sua casa. Está segura.
E que estamos a fazer?
Estamos aqui!
Estou triste, não sei porquê, estou muito triste
Porque?
Não sei, não sei, mas há uma tristeza! ...
....
Olha como se chama uma menina a escrever?
Uma menina a escrever? Eu estou a escrever.
Ah ! Então porque não sei disso?
....
Tenho a impressão que preciso de uma coisa assim. Era bom ter uma coisa como antigamente. As pessoas falavam muito comigo. Eu ia, ja não sei para onde. Eu não sei. Mas devo estar mesmo no fim. Meu Deus porque tenho assim uma coisa branca nos cotovelos. Se a minha filha soubesse. Eu não sei.
Essa coisa branca não tem importancia nenhuma.
Já perguntaste a alguém?
Já. já perguntei ao médico.
Pronto, fico mais aliviada.
Eu tenho a impressão que até os cães sabem coisas nossas.
Sabem coisas nossas? Como?
Não sei, tinha a ideia disso.
(Olha a televisão) - Depois há aqui pessoas a rir a falar e tal. (Lê) "debate politico no domingo na RTP" . E a minha filha, a minha filha querida..
Esta coisa inibe-me bastante. Inibe-me uma coisa que eu pressinto que as pessoas têm e eu não.
O quê ?
Não sei filha, eu gostava de saber, mas não sei o que é. Sim ,mas também há outras que tenho. Está aqui, por exemplo, uma coisa - maria, triunfo, triunfo. E também acho graça que há pessoas que estão assim, por exemplo... (olha a TV). Está agora uma coisa que vou comer - bolachas . Meu Deus eu já não sei dizer nada, nem nada.
(Continua a olhar a TV) -Eu já sabia como se chamava este homem gordo, muito gordo, mas varreu-se-me.
Não sei, esta coisa de me terem tirado umas coisas... Há umas coisas que me tiraram e me fizeram falta. Está ali um cão... Paciência, paciência
Este bicho aqui também, este bicho horroroso, (olha a garrafa de oxigénio) está-me aqui a incomodar, mas pronto.
E então, a minha filha onde está?
Estou aqui mamã!
Oh a minha pomba linda! Então filha, se tu quiseres dares assim uns saltos, podes não podes?
Aquele homem gordo, filha, que não sei quem ele é nem nada, mas toda a gente acha-lhe graça, porquê, diz-me lá ?!
E tu não achas, é?
Eu não filha, não acho e fico espantada como é que lhe acham. Não percebo. Paciência.
Oh meu Deus quando é que eu saio daqui, meu Deus quando será? Olha tanta festa, tanta festa! Valha-me Deus, não haverá aqui nada, para a gente começar... Não haverá aqui alguem ...?
Para começar o quê?
Para comecar a ... como é que se diz ....p'rá começar ... Por exemplo, agora está aqui este leite... E pronto, e eu tenho muitos e tu também deves ter muitos... Imagina assim... Meu Deus, eu... eu... por exemplo se vamos ... Agora o gordo já acabou e não será bom? Olha actimel eu gosto muito de actimel! Ai Nossa Senhora estou cansada, estou muito cansada.!
Não seria possível dar assim uma voltinha à casa?
Toca a campaínha. É o senhor que vem dar a comunhão. Reconhece-o. Falam. Rezam.
Ela comunga e chora..
Chego a casa, depois de um dia de trabalho. Ao aperceber-se que cheguei, exclama : - "És tu?. Vem cá ! " . Agita a mão num frenesim. Choraminga : -"Oh filha, tu não me abandones. Eu preciso muito de ti."
Dou-lhe beijinhos. Muitos!
"Pois é ! Ninguém quer saber de mim. Ninguém me dá beijinhos nem nada".
"Oh ninguém te dá beijinhos. Dou-te eu !"
Afasto-me, mas passado pouco tempo volta a chamar. Está alvoroçada. -"Vem cá. Ajuda-me! " E aponta o livro que tem à frente - é um Diário de Torga, autor de quem ela sempre gostou. Com o dedo sublinha uma frase, lendo-a : "A velhice sabe embalar".
-"Oh! Tu queres que eu te embale?" pergunto.
-"Pois quero!".
Embalo-a um bocadinho e depois deixo-a outra vez.
Continua a ler o livro e vai comentando: -" Pois é, é muito triste para mim. Isto é tudo gente boa, gente chique e eu, pronto, eu desapareci.". Vai folheando o livro e comentando : - " Pois é! Isto é mesmo assim. Isto é assim!"
-"Que estás a ler?"
-"Coisas sérias, mas que para mim não me servem, nem nunca serviram. Ninguém viu a menina que andava por ali."
E passado um bocado: -" É assim mesmo! Alguém se lembra de uma miúda que andava por ali aos papéis?"
-"Quem era a miúda que andava aos papéis?"
-"Oh filha, era eu se calhar. Quem é que ligava a uma miúda? Nada, ninguém viu nada, ninguém trouxe nada! Eu não sei onde é que estou, nem nada, nem sei se chego, nem nada. Poemas, poemas, mais nada"
De vez enquando, por várias vezes, lê alto no titulo de outro livro - "Vila Flor". .
-"O que é que te faz lembrar - Vila Flor?"
-" Nada filha, que eu era, era o quê? Era uma miúda que andava por ali aos papéis".
Vou ver o livro. O "Diário" está aberto e na página à sua frente um pequeno texto onde se refere Bernardim Ribeiro e o seu livro "Menina e Moça".
E este nó na garganta...
De madrugada agita-se, geme, fala alto "Ai, meu Deus. Ai, meu Deus. Ai, meu Deus!"
O meu passarinho doente! Como tem medo! Tanta angústia !
Chego ao pé dela :
- "Máminha doi-lhe alguma coisa?"
Abre os olhinhos : -"Não. Não doi"
- "Então porque geme?"
- "Não sei" com entoação de menina. "Eu gemo?".
Aconchego-lhe a roupa. Volto para a cama.
Já de manhã, dorme sossegada. Custa-me tanto acordá-la, mas é necessário... Dou-lhe um beijinho - a pelezinha macia de menina, o calorzinho dela. Acorda e exclama logo :
- "Olha a minha menina! Eu quero a minha menina!".
- "Olá mami, posso abrir um pouco a pressiana, posso?"
- "Sim. sim. Abre tudo".
-" Olha, mami, como está sol! Tão bonito, não é?
-"Ah! Ah! Pois é!"
- "Miminho, deixas-me mudar-te a tua cueca?"
- "Sim, eu deixo tudo!"
- " Vira-te de costas, então"
- "Pronto, pronto já está". E continua deitada de lado.
-"Não mami. Tens que te virar mesmo de costas, assim" Ajudo-a. Lá se vira. Tapo-lhe o peito com uma mantinha, para que não apanhe frio, enquanto puxo para baixo a roupa da cama.
-"Olha, olha, está frio, está frio."
- " Pois está. É só um bocadinho. Espera, vai ser rápido"
Mudo-lhe a "cueca" (chamo-lhe a "cueca partida ao meio"...). Ela ajuda, levantando o rabinho. Volto a tapá-la. Fica contente porque está de novo quentinha. Gosta muito de quentinhos a minha pequenina.
Pego-lhe nos pés: - " De quem são estes pés?
-"Não sei".
- "E estas mãos?"
- "Não sei"
- " E estas pernas?"
- " É tudo nosso!" despacha ela. Se é tudo nosso, não há lugar para mais questões.
E também, talvez este -"é tudo nosso" queira dizer que por vezes se confunde comigo, não se separando completamente de mim.
Não me apercebi logo. Ou não queria ver, ocupada comigo, com os meus assuntos.
Aparecia-me em casa. Desfeita. Encostava-se à parede e ali ficava, no que eu considerava uma dramatização.
A paciência faltava-me, calejada por anos de dramáticas exposições, daquele teor ou outro, mas sempre intensas, excessivas. Paroxismos, exigindo a minha atenção, a minha energia, tantas vezes gasta.
Evitava entrar-lhe em casa. Fugia.
Quando a visitava, via aquela proliferação de papeis. Papeizinhos por todo o lado, lembrando tudo. Mas também isso vinha a acontecer desde há algum tempo.
Nas idas a neurologistas, após testes cujas perguntas ela considerava ridiculas, a sentença tinha sido sempre benigna - um defice cognitivo ligeiro.
E ela assustada, mas arvorando aquele ar de confiança, de desafio.
Como me é claro, agora, o medo que a tomava e que ela espantava assim, corajosa e, afinal, sozinha.
E como isso dói, a esta distância.
Entretanto, insidiosamente, as dificuldades progrediam. Até que, em Novembro de 2007, após comparação do último teste com os anteriores, a médica nos levou para outro consultório. Era a sentença, em forma de probabilidade, como o é sempre nestes casos, mas esmagadora, fulminante. A acompanhar indicava um medicamento. "É um medicamento que trava o processo" disse eu então, tentando agarrar-me. E a médica, muito preocupada com a precisão de ideias, implacável e seca no seu papel esclarecedor - "Vamos lá ver se nos entendemos. Este medicamento não trava nada. Ele ... " e engrolou explicações vagas. Não entendi o que raio ele fazia. Se não curava e não travava, fazia o quê?" Ao que concluí, tudo traduzido, mais valia alguma coisa que nenhuma. Sempre se teria a ilusão de que se lutava....
Mais tarde, já só, pensei que morria - "Meu Deus. nao vou suportar vê-la tolinha".
Sentada no seu cadeirão, chama-me com um gesto característico. Estou mesmo ao lado, pergunto - "Que quer mamã?".
"Vem p'ra mim", responde.
"Mas estou mesmo aqui".
Apesar do que digo, continua a chamar.
Levanto-me e sento-me no banco onde apoia os pés. Sorri, o seu sorriso lindo. Faço-lhe festas. damo-nos as mãos, trocamos beijinhos. Ao mesmo tempo, falamos, mas não sei o que dizemos. Coisas um pouco sem nexo. Quase chilreios. A certa altura digo - "Estamos a brincar a gostar, não é?" Sorri. Diz que sim.
Rimo-nos contentes. Continuamos a comunicar sem que a cabeça saiba o que dizemos. Passado um bocado, volto a perguntar - E agora a que estamos a brincar". "Estamos a brincar à Isabel " responde.

Não sei. Apeteceu-me um regato.
Dou-lhe a sopa. É o meu passarinho velhinho. Está tão doente o meu passarinho. E tem medo. Tanto medo... Diz -" Tenho tanta pena de morrer!" "Minha menina não me deixes morrer". E fico sem saber o que dizer. Como comunicar com esta verdade? Impossíveis os clichés... Evoco imagens religiosas. "ELE está aqui contigo, não tenhas medo". Mas que direito tenho de ousar dizer seja o que for? Não sou eu que estou ali, sentada na cadeira última, gemendo e temendo o que vem. É tão fácil para nós que não estamos ali!
Aqui há dias, no último internamento, encostadas a aparelhos que caoticamente se acumulam por ali - no corredor - a médica " Sabe bem que o prognóstico é muito reservado!" "Que quer isso dizer? Diga-me dra a ver se me entra, a ver se me cabe". "Se morrer para a semana não me admiro nada, mas também pode estar viva daqui a um ano". Estamos no corredor. As pessoas passam. Para aquela clínica podem ter-se conversas destas assim entre uma coisa e outra, no meio do caos, de pé, no meio de nada...
Agora, a qualquer sinal novo, fico na angústia. Estaremos já na semana que vem? Chegou o momento? O momento é isto? Começa assim?
Os sinais vão passando. O meu passarinho velhinho continua a gemer assustado.
A clínica, competentissima dizem, continua, imagino, a atirar velhinhos para trás das costas e a esclarecer e confortar as famílias assim... É jovem e tão segura de si...
Achou, apesar do prognóstico muito reservado, que a doente deveria regressar a casa. E aqui estamos. Dia após dia. Vivendo o melhor que podemos.
. Urgência
. E ninguém bate, ninguém r...
. Lanche
. Cansaço
. Clã